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Poema de Fernando Pessoa

Há uns meses atrás passei por uma situação de “humilhação acadêmica” e uma pessoa muito especial me mandou este poema como consolo.

De tudo na vida,
ficaram três coisas:
A certeza de que estamos sempre começando;
A certeza de que precisamos continuar;
A certeza de que seremos interrompidos antes de terminar.

Portanto, devemos:
Fazer da interrupção um caminho novo;
Da queda, um passo de dança;
Do medo, uma escada;
Do sonho, uma ponte.

Qualquer um. Relatei no último post uma experiência traumatizante que me empurrou para o exercício de auto-reflexão. Acho que com isso acabei dando a impressão de que é preciso sofrer para se chegar ao autoconhecimento, quando na verdade este é apenas um dos muitos caminhos. A minha experiência representa apenas um caso aleatório, e ao contrário da filosofia “no pain, no gain”, é possível se conhecer e ainda se divertir. Vejamos na prática.

Acordamos, escovamos os dentes (tá certo que nem todos), tomamos café (uns fazem jejum até o almoço!) e estamos pronto para começar o dia. Seja lá qual for a atividade que nos aguarda, tem gente que segue feliz da vida, tem gente que sai de casa contrariada e tem gente que liga o piloto automático e nem sabe se gosta daquilo ou não. De qualquer maneira, só a forma como reagimos diante da situação já é um indício de como somos.

Contudo, é mais comum desenvolvermos a capacidade de percepção diante de fatos grandes; aqueles eventos que nos fazem repensar a vida e traçar novas metas. E aí que começamos a questionar “o que eu quero? o que me faz feliz? o que posso ganhar/perder com essa decisão”, perguntas pertinentes e que invariavelmente levam ao autoconhecimento. Se acertamos na escolha, ficamos felizes e nem sempre nos damos conta de isso foi um aprendizado e tanto sobre nós. Tem gente que atribui à sorte. Mas a sorte também pode funcionar contra nós. E quando as coisas desandam… aí queremos nos conhecer de um dia para o outro. Ter respostas imediatas e não correr o risco de errar de novo. Mas ainda não existe seguro para as cagadas que fazemos na vida. E é preciso continuar o processo e tirar proveito de tudo.

Como diz o clichê, “vivendo e aprendendo”

É muito difícil a gente se conhecer. Poxa, e como! Esse pensamento logo me remete às inúmeras dinâmicas de grupo às quais me submeti nesta vida, a maioria resultando em fracasso total.  Era sabido que eu teria de me apresentar. Era sabido que eu teria que ter uma resposta para minhas qualidades e para meus defeitos.  Mas a cada dinâmica eu falava uma coisa diferente. Não que eu inventasse atributos ou que alternasse conscientemente os velhos clichês. Eu simplesmente mudava de opinião sobre o que era mais interessante em mim.

 Confesso que no início eu até apresentei as respostas pré-fabricadas (caso vc queira anotar, aí vão): a) qualidades: trabalho em equipe, liderança, espírito pró-ativo, paixão por desafios, comprometimento e dedicação, foco em resultados (nossa! esse está super na moda!); b) defeitos: perfeccionismo (o preferido da galera), timidez, impaciência, exigência. (Aconselho escolher várias qualidades e só um defeito.) Sabe trabalhar sob pressão? Claro! Aliás, só produzo bem se eu estiver com a corda no pescoço. Aqui na empresa freqüentemente ficamos depois do expediente, você está disposto a isso? O senhor só pode estar de brincadeira! Meu nome é trabalho e meu sobrenome é hora-extra. Tem disponibilidade para viagem e mudanças? Sim, sim. Acredito que viagens e mudanças, ao contrário de muitas pessoas que lastimam ficar longe de familiares e amigos, são excelentes oportunidades de crescimento pessoal, conseqüentemente profissional também.

Depois eu cansei e parei de mentir. Não adiantou muito porque continuei sem passar nas dinâmicas, mas pelo menos acho que eu não ia mais com aquela cara de texto decorado, e passei a ser mais convincente . Então, tudo o que eu tinha que fazer era pesquisar minhas aptidões, escolher umas três ou quatro e adaptá-las à situação de mercado. Duas ou três seriam respondidas no momento “qualidades” e a outra seria uma qualidade que levada ao extremo se caracterizava como defeito. Fácil, não?

Discordo. Essa incursão no eu interior é uma viagem longa e sem chegada. Quanto mais eu tento me conhecer, mais eu descubro que não sei patavinas a meu respeito. Mas é um trabalho necessário. Necessário para que não cometamos os erros do passado, necessário para que possamos tomar decisões conscientes, necessário para que a probabilidade de sofrimentos diminua e a de felicidade aumente.

Não estou disposta a trabalhar fora do expediente todos os dias da semana, não há hora extra que pague as horas de prazer que eu teria em casa ou ao lado das pessoas de que gosto. Não estou disposta a mudanças, a menos que seja com a data de volta confirmada. É muito bom viajar e abrir os horizontes, mas de nada adianta se eu não tiver com quem compartilhar meus conhecimentos. Não sou perfeccionista e às vezes fico sem reação diante de situações completamente inusitadas – normal, afinal somos seres humanos. Estou certa de que tenho bom coração e gosto de ajudar as pessoas, mas não sei se isso interessa ao mercado. 

Cada um de nós vive uma determinada situação de forma própria; isto é, por mais que nossos amigos sejam bem parecidos conosco, eles experenciam o momento de forma diferente – talvez até de maneira semelhante, mas, sem dúvida, diversa.  Basta pensarmos naqueles shows em que gritamos mais, dançamos mais, ou até mesmos nos entediamos mais do que nossos pares. E assim o processo se dá em cada situação.

O que é interessante é que o mesmo ocorre nos relacionamentos. Às vezes ficamos por horas a fio conversando com um amigo e guardamos a lembrança de certos segmentos. O amigo, por sua vez, pode recordar carinhosamente a conversa mas por outras coisas que foram ditas. O que é relevante para um, pode não ser para outro. Ou ainda, as pessoas podem viver sentimentos completamente opostos. Vejamos o exemplo de um almoço de negócios em que um cliente sai satisfeito com o acordo mas ao custo de uma desvantagem para a empresa.

De maneira geral, o que experiementamos é um reflexo de como somos. E por ser algo único, não podemos querer que o outro seja da mesma opinião.

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