É muito difícil a gente se conhecer. Poxa, e como! Esse pensamento logo me remete às inúmeras dinâmicas de grupo às quais me submeti nesta vida, a maioria resultando em fracasso total. Era sabido que eu teria de me apresentar. Era sabido que eu teria que ter uma resposta para minhas qualidades e para meus defeitos. Mas a cada dinâmica eu falava uma coisa diferente. Não que eu inventasse atributos ou que alternasse conscientemente os velhos clichês. Eu simplesmente mudava de opinião sobre o que era mais interessante em mim.
Confesso que no início eu até apresentei as respostas pré-fabricadas (caso vc queira anotar, aí vão): a) qualidades: trabalho em equipe, liderança, espírito pró-ativo, paixão por desafios, comprometimento e dedicação, foco em resultados (nossa! esse está super na moda!); b) defeitos: perfeccionismo (o preferido da galera), timidez, impaciência, exigência. (Aconselho escolher várias qualidades e só um defeito.) Sabe trabalhar sob pressão? Claro! Aliás, só produzo bem se eu estiver com a corda no pescoço. Aqui na empresa freqüentemente ficamos depois do expediente, você está disposto a isso? O senhor só pode estar de brincadeira! Meu nome é trabalho e meu sobrenome é hora-extra. Tem disponibilidade para viagem e mudanças? Sim, sim. Acredito que viagens e mudanças, ao contrário de muitas pessoas que lastimam ficar longe de familiares e amigos, são excelentes oportunidades de crescimento pessoal, conseqüentemente profissional também.
Depois eu cansei e parei de mentir. Não adiantou muito porque continuei sem passar nas dinâmicas, mas pelo menos acho que eu não ia mais com aquela cara de texto decorado, e passei a ser mais convincente . Então, tudo o que eu tinha que fazer era pesquisar minhas aptidões, escolher umas três ou quatro e adaptá-las à situação de mercado. Duas ou três seriam respondidas no momento “qualidades” e a outra seria uma qualidade que levada ao extremo se caracterizava como defeito. Fácil, não?
Discordo. Essa incursão no eu interior é uma viagem longa e sem chegada. Quanto mais eu tento me conhecer, mais eu descubro que não sei patavinas a meu respeito. Mas é um trabalho necessário. Necessário para que não cometamos os erros do passado, necessário para que possamos tomar decisões conscientes, necessário para que a probabilidade de sofrimentos diminua e a de felicidade aumente.
Não estou disposta a trabalhar fora do expediente todos os dias da semana, não há hora extra que pague as horas de prazer que eu teria em casa ou ao lado das pessoas de que gosto. Não estou disposta a mudanças, a menos que seja com a data de volta confirmada. É muito bom viajar e abrir os horizontes, mas de nada adianta se eu não tiver com quem compartilhar meus conhecimentos. Não sou perfeccionista e às vezes fico sem reação diante de situações completamente inusitadas – normal, afinal somos seres humanos. Estou certa de que tenho bom coração e gosto de ajudar as pessoas, mas não sei se isso interessa ao mercado.